Se Jeová fosse civilizado, quão melhores seriam os Dez Mandamentos.
O faraó teve um sonho, e este sonho foi interpretado por José.
De acordo essa interpretação, haveria no Egito sete anos de fartura, seguidos de sete anos de fome. José aconselhou ao faraó comprar todo o excedente dos sete anos de fartura e armazená-lo para os anos de fome.
O faraó nomeou José como seu ministro – ou agente –, e ordenou que comprasse a produção excedente de grãos dos anos de fartura.
Então veio a fome. O povo pediu ajuda ao rei, o qual disse que deveriam procurar por José e fazer o que ele ordenasse.
José vendeu trigo aos egípcios até que seu dinheiro se esgotasse – até ficar com todo ele.
Após o dinheiro ter acabado, o povo disse: “Dê-nos trigo e lhe daremos nosso gado”.
José deu-lhes trigo até que todo o gado, os cavalos e os carneiros fossem dados a ele.
Então o povo disse: “Dê-nos trigo e lhe daremos nossas terras”.
Então José deu-lhes trigo até que todas terras fossem dadas a dele.
Mas a fome continuou, e assim os pobres infelizes venderam a si mesmos, tornando-se servos do faraó.
Então José lhes deu sementes e fez um pacto com eles, segundo o qual deveriam eternamente dar um quinto de tudo que produzissem ao faraó.
Quem permitiu a José interpretar o sonho do faraó? Jeová! Ele já sabia antecipadamente que José usaria aquela informação para extorquir e escravizar o povo do Egito? Sim. Quem produziu a fome? Jeová!
É perfeitamente nítido que os judeus não viam Jeová como o Deus do Egito – como o Deus de todo o mundo. Era o Deus deles, e tão-somente. Outras nações tinham deuses, mas Jeová era o maior de todos. Ele odiava outras nações e outros deuses, detestava todas as religiões exceto aquela que o adorava.
IV
Que valor tem tudo isto?
Algum estudioso do cristianismo poderia nos explicar qual é o valor do Gênesis?
Sabemos que não é verdadeiro – que se contradiz. Há duas versões da criação, uma no primeiro e outra no segundo capítulo.
Na primeira, os pássaros e bestas foram criados antes do homem.
Na segunda, o homem é criado antes dos pássaros e bestas.
Na primeira, as aves são feitas a partir da água.
Na segunda, as aves são feitas a partir da terra.
Na primeira, Adão e Eva são criados juntos.
Na segunda, primeiramente Adão foi feito; depois as bestas e os pássaros, e então Eva foi criada a partir de uma das costelas de Adão.
Essas histórias são muito mais antigas que o Pentateuco.
Versão persa: Deus criou o mundo em seis dias, um homem chamado Adama, uma mulher chamava Eva, e então descansou.
As histórias dos etruscos, babilônios, fenícios, caldeus e egípcios são muito parecidas.
Os persas, gregos, egípcios, chineses e hindus têm seu Jardim do Éden e sua Árvore da Vida.
Assim, os persas, os babilônios, os núbios, o povo do sul da Índia, todos tinham sua história da sucumbência do homem e da serpente astuciosa.
Os chineses dizem que o pecado veio ao mundo através da desobediência da mulher. E mesmo os taitianos acreditam que o homem foi criado da terra, e a primeira mulher de um de seus ossos.
Todas essas histórias são igualmente autênticas e de idêntico valor ao mundo, e todos os seus autores estavam igualmente inspirados.
Sabemos também que a história do dilúvio é muito mais antiga que o livro do Gênesis; além disso, sabemos que não é verdadeira.
Sabemos que a história do Gênesis é copiada da versão caldéia. Nela você também encontra tudo sobre a chuva, a arca, os animais, a pomba que foi enviada três vezes e a montanha na qual a arca repousa.
Ou seja, hindus, chineses, persas, gregos, mexicanos e escandinavos têm essencialmente a mesma história.
Também sabemos que o relato sobre a Torre de Babel é uma fábula ignorante e infantil.
Então o que resta neste inspirado livro do Gênesis? Contém alguma palavra que visa o desenvolvimento do coração ou da mente? Contém algum pensamento elevado – qualquer grande princípio, alguma poesia –, qualquer palavra que conduza à prosperidade?
Contém algo além de uma enfadonha e detalhada descrição de coisas que nunca aconteceram?
Há algo no Êxodo que pretende tornar os homens generosos, bondosos e nobres?
O que há de bom em ensinar a crianças que Deus torturou o gado inocente dos egípcios – ferindo-os mortalmente a pedradas – por culpa dos pecados do faraó?
Será que nos tornaríamos compassivos se acreditássemos que Deus matou os primogênitos dos egípcios – primogênitos de um povo pobre e sofrido, da pobre moça trabalhando nos moinhos – por causa da maldade do rei?
Podemos acreditar que os deuses egípcios fizeram milagres? Transformaram água em sangue e bastões em serpentes?
No Êxodo não há sequer uma idéia original ou uma linha que tenha valor.
Sabemos – se é que sabemos alguma coisa – que este livro foi escrito por selvagens – selvagens que acreditavam na escravidão, na poligamia e nas guerras de extermínio. Sabemos que a história contada é impossível e que os milagres relatados nunca ocorreram. Este livro admite que há outros deuses além de Jeová. No 18o(1) capítulo há este verso: “Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses; até naquilo em que se houveram arrogantemente contra o povo”.
Neste livro sagrado ensina-se o dever do sacrifício humano – do sacrifício de bebês.
No 22o capítulo há este comando: “Não tardarás em trazer ofertas da tua ceifa e dos teus lagares. O primogênito de teus filhos me darás”.
O Êxodo foi um trampolim ou uma travanca à espécie humana?
Subtraindo-se do Êxodo as leis comuns às outras nações, o que resta nele de valor?
Há algo de importância em Levítico? Há algum capítulo que mereça ser lido? Que interesse temos nas roupas dos padres, nas cortinas e velas dos tabernáculos, nas pinças e pás do altar ou no óleo utilizado pelos levitas?
Para que serve o código cruel, as punições amedrontadoras, as maldições, as falsidades e os milagres deste livro ignorante e infame?
E o que há no livro de Números – com seus sacrifícios e água de ciúmes, seus pães e colheres, suas crianças e flor de farinha, seus óleos e castiçais, seus pepinos, cebolas e manás – que ajuda e instrui a humanidade?
Que interesse temos na rebelião de Corá, na água da amargura, nas cinzas da novilha vermelha, na serpente de bronze, na água que seguiu o povo para cima e para baixo por quarenta anos e na jumenta inspirada do profeta Balaão?
Acaso essas absurdidades e crueldades – essas superstições pueris e selvagens – ajudaram a civilizar o mundo?
Há qualquer coisa em Josué – em suas guerras, em seus assassinatos e massacres, em suas espadas gotejando sangue de mães e bebês, em suas torturas e mutilações, em sua fraude e fúria, em seu ódio e vingança – cuja finalidade é melhorar o mundo?
Cada capítulo deste livro não é um verdadeiro choque ao coração de um homem bondoso? Será um livro que crianças deveriam ler?
O livro de Josué é impiedoso como a fome, feroz como o coração de uma besta selvagem. É uma história, uma justificativa, uma santificação de praticamente qualquer tipo de atrocidade.
O livro de Juízes trata do mesmo assunto, nada além de guerra e matança; a horrível história de Jael e Sísera; de Gideão e suas trombetas e cântaros; de Jefté e sua filha, que ele matou para agradar Jeová.
Nele encontramos a história de Sansão, na qual um deus-sol é transformado em um hebreu gigante.
Leiam este livro de Josué, leiam sobre morticínio de mulheres, esposas, mães e bebês, leiam seus milagres impossíveis, leiam seus crimes cruéis – e tudo feito de acordo com os Dez Mandamentos de Jeová –, e então me digam se este livro foi feito para nos tornar compreensivos, generosos e bondosos.
Admito que a historia de Rute, em alguns aspectos, é bela e tocante; que é contada com naturalidade, e que seu amor por Noêmi era profundo e puro. Mas em matéria de namoro, dificilmente aconselharíamos nossas filhas a seguir o exemplo de Rute. Devemos lembrar que Rute era uma viúva.
Há algo que valha a pena ser lido no primeiro e segundo livros de Samuel? Deveria um profeta de Deus despedaçar um rei cativo? A história da arca, de sua captura e recuperação, tem qualquer importância para nós? É uma atitude correta, justa e clemente matar cinqüenta mil homens porque olharam uma caixa? Qual a utilidade das guerras de Saul e Davi e das histórias de Golias e da feiticeira de Endora? Por que Jeová deveria ter matado Uzá por ter estendido a mão para firmar a arca e perdoado Davi por assassinar Urias e roubar sua esposa?
De acordo com “Samuel”, Davi fez um censo do povo. Isso suscitou a ira de Jeová, que como punição permitiu a Davi escolher sete anos de fome, três meses fugindo da perseguição de seus inimigos ou três dias de pestilência. Davi, tendo confiança em Deus, escolheu os três dias de pestilência; e então Deus – o misericordioso – matou setenta mil homens pelo pecado de Davi.
Ante as mesmas circunstâncias, o que um diabo teria feito?
Há algo no primeiro e segundo livros de Reis que sugere a idéia de inspiração?
Quando Davi está morrendo, diz ao seu filho Salomão para matar Joabe – que não deixasse suas cãs descerem à sepultura em paz. Com seu último suspiro, ordena que seu filho faça com que as cãs de Simei desçam à sepultura com sangue. Após proferir essas amáveis palavras, o bom Davi, o homem do coração de Deus, dormiu com seus pais.
Seria necessária inspiração para que um homem escrevesse a história da construção do templo, a história da visita da rainha de Sabá ou relatasse o número de esposas de Salomão?
Que nos importa mão seca Jeroboão, a profecia de Jeú ou a história de Elias e os corvos?
Como podemos acreditar que Elias trouxe chamas do céu ou que foi até o último Paraíso em um carro de fogo?
Podemos acreditar na multiplicação do azeite por Eliseu, que um exército foi ferido com cegueira ou que um machado flutuou na água?
Será que ler sobre a decapitação dos setenta filhos de Acabe, sobre o vazamento dos olhos de Zedequias e o assassinato de seus filhos nos torna mais civilizados? Há uma palavra sequer no primeiro e segundo livros de Reis que se destina a melhorar o homem?
O primeiro e segundo livros de Crônicas não passam de uma repetição do que é dito no primeiro e segundo livros de Reis. As mesmas velhas histórias – com algumas reduções, algumas adições, mas que não as tornam nem melhores nem piores.
O livro de Esdras é irrelevante. Conta-nos que Ciro, o rei da Pérsia, emitiu uma proclamação para a construção do templo de Jerusalém, e que declarou ser Jeová o único e verdadeiro Deus.
Nada poderia ser mais absurdo. Esdras nos fala sobre o retorno do cativeiro, a construção do Templo, a dedicatória, umas poucas orações, e isso é tudo. Esse livro não tem qualquer importância, é inútil.
Neemias trata do mesmo assunto, apenas fala sobre a construção do muro, as reclamações do povo quanto aos impostos, a lista daqueles que retornaram da Babilônia, um catálogo daqueles que habitavam Jerusalém e a dedicatória dos muros.
Nenhuma palavra do livro de Neemias merece ser lida.
Então vem o livro de Ester: nele é dito que o rei Assuero estava embriagado; que ordenou à sua rainha, Vasti, que se mostrasse a ele a aos convidados. Mas ela recusou-se.
Isso enfureceu o rei, e este ordenou que de cada província fossem trazidas as moças mais bonitas, para que ele pudesse escolher uma para ocupar o lugar de Vasti.
Entre outras, foi trazida Ester, uma judia. Ela foi escolhida, tornando-se a esposa do rei.
Um cavalheiro chamado Hamã desejava que todos os judeus fossem destruídos, e o rei, não tendo conhecimento de que Éster era uma judia, assinou um decreto para que os judeus fossem mortos.
Através dos esforços de Mordecai e Ester o decreto foi anulado e os judeus salvaram-se.
Hamã preparou uma forca para a execução de Mordecai, mas a boa Ester conseguiu fazer com que Hamã e seus dez filhos fossem enforcados na forca que ele havia construído, e os judeus foram autorizados a matar mais de setenta e cinco mil súditos do rei.
Essa é a história inspirada de Ester.
No livro de Jó encontramos alguns sentimentos elevados, alguns pensamentos sublimes e alguns tolos, algo sobre a maravilha e a perfeição da natureza, as alegrias e tristezas da vida; mas a história é infame.
Alguns Salmos são bons, muitos são indiferentes e poucos são infames. Neles estão misturados vícios e virtudes. Há versos que elevam e versos que degradam. Há orações de perdão e orações de vingança. Em toda a literatura mundial não existe nada mais inumano e infame que o
109o salmo.
Nos provérbios há muita sagacidade, muitas máximas expressivas e prudentes, muitos dizeres sábios. As mesmas idéias são exprimidas de várias maneiras – a sabedoria da economia e do silêncio, os perigos da vaidade e da ociosidade. Alguns são triviais, alguns são tolos e muitos são sábios. Esses provérbios não são generosos – não são altruísticos. Dizeres de mesma natureza podem ser encontrados em todas nações.
Eclesiastes é o livro mais profundo da Bíblia. Foi escrito por um descrente – um filósofo –, um agnóstico. Retire-se dele as interpolações, e estará de acordo com o pensamento do século XIX. Nesse livro estão as passagens mais filosóficas e poéticas da Bíblia.
Após atravessar o deserto de mortes e crimes – após ler o Pentateuco, Josué, Juízes, Samuel, Reis e Crônicas –, é um encanto encontrar esse jardim de poesia chamado “Cântico dos Cânticos”. Um drama de amor – de amor humano –, um poema sem Jeová, um poema nascido do coração e verdadeiro para os instintos divinos da alma.
Isaías é o trabalho de vários. Suas palavras pomposas, sua imagética vaga, suas profecias e maldições, seus devaneios contra reis e nações, seu escárnio da sabedoria humana e seu ódio à alegria não possuem a menor tendência de promover o bem-estar do homem.
Neste livro encontra-se o mais absurdo de todos os milagres. A sombra no relógio volta dez graus como sinal de que Jeová havia adicionado quinze anos à vida de Ezequias. (cf.
Isaías 38)
Com este milagre o mundo – que gira de oeste para leste a mais de mil milhas por hora – não apenas para, mas de fato retrocede até que a sombra do relógio tenha voltado dez graus!
Há em todo o mundo algum indivíduo inteligente que acredite nesta mentira grosseira?
Jeremias não contém nada de importância – nenhum fato de valor.
Nada além de procura por erros, lamentações, resmungos, gemidos, maldições e promessas; nada além de fome e oração, da prosperidade do mal, da ruína dos judeus, do cativeiro e o retorno, e finalmente Jeremias, o traidor, no tronco e na prisão.
O livro de Lamentações é simplesmente a continuação dos delírios do mesmo pessimista insano; nada além de pó, trapos, cinzas, lágrimas, uivos, xingamentos e insultos.
E Ezequiel – comendo manuscritos, profetizando cerco e desolação, com visões de brasas de fogo, de querubins, da figura da caldeira fervente e da ressurreição de ossos secos – também não possui qualquer valor, nenhum valor imaginável.
Assim como Voltaire, digo que se há alguém que admira Ezequiel, então deveria ser compelido a jantar com ele.
Daniel é um sonho conturbado – um pesadelo.
Que utilidade tem este livro, com sua imagem com cabeça de ouro, com peito e braços de prata, com ventre e coxas de bronze, com pernas de ferro e com pés em parte de ferro e em parte de barro; com suas escrituras na parede, sua cova dos leões e sua visão do carneiro e do bode?
Há algo e ser aprendido de Oséias e sua esposa? Há algo proveitoso em Joel, em Amós, em Obadias? Há algo a ser extraído da história de Jonas e o peixe que o engoliu? Será possível que Deus é realmente o autor de Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Malaquias e Zaracias, com seus cavalos vermelhos, seus quatro chifres, seus quatro ferreiros, seu rolo voador, seus montes de bronze e sua pedra com sete(2) olhos?
Estes livros “inspirados” trouxeram qualquer benefício ao homem?
Nos ensinaram como cultivar a terra, construir casas, tecer roupas ou preparar alimento?
Nos ensinaram a pintar quadros, talhar estátuas, construir pontes, navios ou qualquer coisa bela ou útil? Foi do Velho Testamento que derivamos nossas noções de governo, de liberdade de culto, de liberdade de pensamento? Colhemos destes livros qualquer idéia que contribuiu à ciência? Há nestas “sagradas escrituras” uma palavra, uma linha que tenha contribuído à riqueza, à inteligência ou à felicidade da humanidade?
Há algum livro no Velho Testamento tão divertido quanto “Robinson Crusoe”, “As Viagens de Gulliver” ou “Peter Wilkins e sua Esposa Voadora”? Será que o autor de Gênesis sabia tanto sobre a natureza quanto Humboldt, Darwin ou Haeckel? Será que o chamado Código Mosaico é tão sábio ou tão compassivo quanto o código de quaisquer nações civilizadas? Os escritores de Reis e Crônicas foram grandes historiadores e escritores assim como Gibbon e Draper? Será Jeremias ou Habacuque igual a Dickens ou Thackeray? Os autores de Jó e Salmos são comparáveis a Shakespeare? Por que deveríamos atribuir o melhor ao homem e o pior a Deus?
V
Jeová era um Deus do amor?
Será que estas palavras vieram de um coração cheio de amor?
“quando o Senhor teu Deus tas tiver entregue, e as ferires, totalmente as destruirás; não farás com elas pacto algum, nem terás piedade delas” (cf.
Deuteronômio 7:2)
“Males amontoarei sobre eles, esgotarei contra eles as minhas setas” (cf.
Deuteronômio 32:23)
“Consumidos serão de fome, devorados de raios e de amarga destruição; e contra eles enviarei dentes de feras, juntamente com o veneno dos que se arrastam no pó” (cf.
Deuteronômio 32:24)
“Por fora devastará a espada, e por dentro o pavor, tanto ao mancebo como à virgem, assim à criança de peito como ao homem encanecido” (cf.
Deuteronômio 32:25)
“Fiquem órfãos os seus filhos, e viúva a sua mulher! Andem errantes os seus filhos, e mendiguem; esmolem longe das suas habitações assoladas. O credor lance mão de tudo quanto ele tenha, e despojem-no os estranhos do fruto do seu trabalho! Não haja ninguém que se compadeça dele, nem haja quem tenha pena dos seus órfãos!” (cf.
Salmos 109:9-12).
“comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas” (cf.
Deuteronômio 28:53)
“O céu que está sobre a tua cabeça será de bronze, e a terra que está debaixo de ti será de ferro” (cf.
Deuteronômio 28:23)
Essas maldições e ameaças vieram de um coração cheio de amor ou da boca da selvageria?
Jeová era um deus ou um diabo?
Por que deveríamos colocar Jeová acima de todos os outros deuses?
Será que a ignorância e o medo do homem já conceberam algo mais monstruoso?
Será que bárbaros de quaisquer terras, de quaisquer épocas, já adoraram um deus mais cruel?
Brahma era mil vezes mais nobre, assim como Osíris, Zeus e Júpiter. E também a suprema divindade dos Astecas, à qual se oferecia apenas o perfume de flores. O pior deus dos hindus, com seu colar de crânios e seu bracelete de cobras vivas, parece bondoso e compassivo quando posto lado a lado com Jeová.
Comparado a Marco Aurélio, quão pequeno Jeová parece. Comparado com Abraham Lincoln, quão cruel, quão desprezível é este deus.
VI
A administração de Jeová
Ele criou o mundo, o exército do céu [estrelas], um homem e uma mulher – e colocou estes em um jardim. Então a serpente os enganou, e assim foram expulsos e forçados a ganhar seu próprio pão.
Jeová ficou contrariado.
Tentou novamente. Ficou aproximadamente dezesseis séculos tentando civilizar seu povo.
Nenhuma escola, nenhuma igreja, nenhuma Bíblia, nenhum tratado – ninguém os ensinou a ler ou escrever. Nem sinal dos Dez Mandamentos. O povo tornava-se pior e pior, até que o misericordioso Jeová decidiu enviar o dilúvio para afogar todas as criaturas, salvo Noé e sua família – oito no total.
Então ele recomeçou. Mudou seus hábitos alimentares. De início Adão e Eva eram vegetarianos, mas após o dilúvio Jeová disse: “Tudo quanto se move e vive vos servirá de mantimento” (cf.
Gênesis 9:3) – cobras e urubus.
Mas falhou novamente, e na Torre de Babel dispersou e espalhou os povos.
Percebendo que não conseguiria administrar todos os povos, decidiu dedicar-se a uns poucos; escolheu Abraão e seus descendentes. Malogrou novamente. Seus escolhidos foram capturados pelos egípcios e escravizados por quatro séculos.
Ele tentou novamente – resgatou-os do Faraó e direcionou-os à Palestina.
Mudou então sua dieta, permitindo-os comer apenas os animais de unhas fendidas e que se alimentassem de grama.
Falhou novamente.
O povo o odiava; preferia a escravidão do Egito à liberdade de Jeová. Então os deixou vagando até que quase todos que tinham vindo do Egito estivessem mortos. E tentou novamente – levou-os à Palestina e os colocou sob governo dos Juízes.
Isso também foi um fracasso – nenhuma escola, nenhuma Bíblia. Então tentou os réis, que eram em sua maioria idólatras.
Então seu povo escolhido foi conquistado e levado em cativeiro pelos babilônios.
Outro insucesso.
Eles retornaram, e Jeová experimentou os profetas – berradores e gemedores –, mas o povo tornava-se cada vez pior. Nada de escolas, ciências, artes ou comércio. Então Jeová fez-se carne – nascido de uma mulher –, e viveu entre o povo que vinha tentando civilizar há milênios. Então o povo, seguindo as leis que o próprio Jeová havia lhes dado, acusou este Jeová-homem – este Cristo – de blasfêmia; o acusaram, julgaram e mataram.
Jeová falhou novamente.
Então abandonou os judeus e concentrou sua atenção no resto do mundo.
E agora os judeus, apesar abandonados por Jeová e perseguidos pelos cristãos, são o povo mais próspero de Terra. Novamente, uma falha.
Que administração!
VII
O Novo Testamento
Quem escreveu o Novo Testamento?
Estudiosos do cristianismo admitem que não sabem. Admitem que, se os quatro evangelhos tivessem sido escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João, então estariam em hebraico. Entretanto, nenhum manuscrito de quaisquer dos evangelhos jamais foi encontrado em hebraico. Todos foram escritos em grego. Assim, teólogos educados admitem que as Epístolas – Tiago e Judas – foram escritas por pessoas que desconheciam totalmente os quatro evangelhos. Nestas duas epístolas não é feita qualquer alusão aos evangelhos e nem aos milagres que relatam.
A mais antiga referência encontrada a um dos quatro evangelhos foi feita cerca de cento e oito anos após o nascimento de Cristo, e os quatro evangelhos foram pela primeira vez nomeados e citados no começo do terceiro século, cerca de cento e setenta anos após a morte de Cristo.
Hoje sabemos que havia muitos outros evangelhos além dos quatro, alguns dos quais perderam-se. Havia o evangelho de Paulo, dos Egípcios, dos Hebreus, da Verdade, de Judas, de Tadeu, de Infância, de Tomé, de Maria, de André, de Nicodemos, de Marcião e vários outros.
Havia os Atos de Pilatos, de André, de Maria, de Paulo, de Tecla e muitos outros; também havia um livro chamado O Pastor de Hermas.
A princípio nenhum desses livros era considerado inspirado. Achava-se que o Velho Testamento era divino, mas os livros que atualmente constituem o Novo Testamento eram considerados meras produções humanas. Hoje temos consciência de nossa ignorância quanto aos verdadeiros autores dos quatro evangelhos.
A questão é: os autores destes quatro evangelhos estavam inspirados?
Se estavam, então os quatro evangelhos necessariamente são verdadeiros. E se são verdadeiros, obviamente devem concordar entre si.
Os quatro evangelhos não concordam.
Mateus, Marcos e Lucas desconheciam totalmente a recompensa e a salvação através da fé. Conheciam apenas o evangelho da boa ação – da caridade. Ensinam que, se perdoarmos aos outros, Deus nos perdoará.
Com isso o Evangelho de João não concorda.
Neste evangelho é dito que precisamos crer no Senhor Jesus Cristo; que precisamos nascer novamente; que precisamos beber o sangue e comer a carne de Cristo. Neste evangelho encontramos a doutrina da recompensa e a de que Cristo morreu e sofreu por nós.
Este evangelho é completamente divergente dos outros três. Se os outros três são verdadeiros, então o Evangelho de João é falso. Se o Evangelho de João foi escrito por um homem inspirado, então os autores dos outros três careciam de inspiração. Para isto não há escapatória. É impossível que os quatro sejam verdadeiros.
É evidente que há muitas interpolações nos quatro evangelhos.
Por exemplo, no 28o capítulo de Mateus é dito que os soldados da tumba de Cristo foram subornados para dizerem que os discípulos de Jesus furtaram seu corpo enquanto eles – os soldados – dormiam.
Isso é claramente uma interpolação, uma interrupção na narrativa.
O 10o verso deveria ser seguido pelo 16o.
O 10o verso: “Então lhes disse Jesus: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galiléia; ali me verão”.
O 16o verso: “Partiram, pois, os onze discípulos para a Galiléia, para o monte onde Jesus lhes designara”.
A história sobre os soldados está contida nos versos 11, 12, 13, 14 e 15. É uma interpolação – uma reflexão posterior, muito posterior. O 15o verso demonstra isto.
O 15o verso: “Então eles, tendo recebido o dinheiro, fizeram como foram instruídos. E essa história tem-se divulgado entre os judeus até o dia de hoje”.
Certamente esta passagem não estava no evangelho original, e certamente o 15o verso não foi escrito por um judeu. Nenhum judeu escreveria isto: “E essa história tem-se divulgado entre os judeus até o dia de hoje”.
Marcos, João e Lucas nunca souberam que os soldados foram subornados; ou, se souberam, não julgaram que tal fato merecia ser registrado. Ou seja, as passagens sobre a Ascensão de Jesus Cristo em Marcos e Lucas são interpolações. Mateus não diz qualquer coisa sobre a Ascensão.
Certamente nunca houve um milagre de maiores proporções, e mesmo assim Mateus, que estava presente – que viu o Senhor ascender aos céus e desaparecer –, não o julgou digno de menção.
Por outro lado, as últimas palavras de Cristo, de acordo com Mateus, contradizem a Ascensão: “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. (cf.
Mateus 28:20)
João, que estava presente, se é que Cristo realmente ascendeu, não diz sequer uma palavra sobre o assunto.
Quanto à Ascensão, os evangelhos não concordam.
A seguir está transcrita a última conversa de Cristo com seus apóstolos segundo Marcos: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados. Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus.” (cf.
Marcos 16:15-19)
Será possível que tal descrição foi escrita por um indivíduo que testemunhou este milagre?
O milagre foi descrito por Lucas desta forma: “E aconteceu que, enquanto os abençoava, apartou-se deles; e foi elevado ao céu”. (cf.
Lucas 24:51)
Nos Atos é dito que: “Tendo ele dito estas coisas, foi levado para cima, enquanto eles olhavam, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos”. (cf.
Atos 1:9)
Nem Lucas, Mateus, João ou o autor de Atos ouviram qualquer palavra da conversa atribuída a Cristo por Marcos. O fato é que a Ascensão de Cristo não foi alegada pelos seus discípulos.
A princípio Cristo era apenas um homem – e nada mais. Maria era sua mãe, José era seu pai. A genealogia de seu pai, José, foi apresentada para demonstrar que ele tinha o mesmo sangue de Davi.
Então se alegou que ele era o filho de Deus e que mãe era uma virgem – e permaneceu virgem até sua morte.
Então se alegou que Cristo levantou dentre os mortos e ascendeu corporalmente ao céu.
Foram necessários muitos anos para que essas absurdidades se apoderassem das mentes dos homens.
Se Cristo levantou-se dentre os mortos, por que não apareceu aos seus inimigos? Por que não fez uma visita a Caifás, o sumo sacerdote? Por que não fez outra entrada triunfante em Jerusalém?
Se realmente ascendeu, por que não o fez em público, na presença de seus perseguidores? Por que o maior dos milagres deveria ser feito em segredo, num canto?
Foi um milagre que poderia ter sido visto por uma vasta multidão – um milagre impossível de ser simulado –, que teria convencido centenas de milhares.
Após a história da Ressurreição, a Ascensão tornou-se uma necessidade: precisavam se livrar do corpo.
Há muitas outras interpolações nos evangelhos e epístolas.
Pergunto novamente: o Novo Testamento é verdadeiro? Será que alguém ainda acredita que no nascimento de Cristo houve uma saudação celestial; que uma estrela guiou os magos do oriente; que Herodes matou todos os meninos de dois anos para baixo que havia em Belém?
Os evangelhos estão repletos de narrativas de milagres. Eles realmente ocorreram?
Mateus relata os pormenores de aproximadamente vinte e dois milagres, Marcos cerca de dezenove, Lucas ao redor dezoito e João por volta de sete.
De acordo com os evangelhos, Cristo curou doenças, expulsou demônios, repreendeu o mar, curou os cegos, alimentou multidões com cinco pães e dois peixes, caminhou sobre as águas, amaldiçoou uma figueira, transformou água em vinho e ressuscitou os mortos.
Mateus é o único que fala sobre a estrela e os magos – o único que menciona o assassinato dos bebês.
João é o único que diz algo sobre a ressurreição de Lázaro e Lucas é o único que narra a ressurreição do filho da viúva de Naim.
Como seria possível comprovar tais milagres?
Os judeus, entre os quais diz-se que os milagres ocorreram, não acreditavam neles. Os doentes, os paralisados, os leprosos e os cegos que foram curados não se tornaram seguidores de Cristo. Nunca mais se ouviu falar daqueles que foram ressuscitados.
Será que qualquer homem inteligente acredita na existência de demônios? Os autores dos três evangelhos certamente acreditavam. João não diz nada sobre Cristo ter expulsado demônios, mas Mateus, Marcos e Lucas dão muitos exemplos.
Será que qualquer homem de bom senso acredita que Cristo expulsava demônios? Se os discípulos o disseram, estavam enganados. Se cristo o disse, era um maluco ou um impostor.
Se as passagens sobre a expulsão de demônios são falsas, então os escritores eram ignorantes ou desonestos. Se seus escritos revelam ignorância, então não estavam inspirados. Se tinham consciência de que estavam escrevendo falsidades, então também não estavam inspirados. Se o que escreveram é uma inverdade – não importa se o sabiam ou não – certamente não havia inspiração.
Naquela época acreditava-se que a paralisia, a epilepsia, a surdez, a insanidade e muitas outras doenças eram causadas por demônios; acreditava-se que os demônios apossavam-se e viviam nos corpos de homens e mulheres. Cristo acreditava nisso, pregou isso e fingiu curar doenças expulsando os demônios dos doentes e insanos. Se hoje sabemos alguma coisa, é que doenças não são causadas pela presença de demônios. Se hoje sabemos alguma coisa, é que demônios não habitam os corpos dos homens.
Se Cristo disse e fez o que os autores dos três evangelhos relatam, então Cristo estava enganado.
Se estava enganado, certamente não era Deus. Se estava enganado, certamente não estava inspirado.
Será verdade que o Demônio tentou Cristo?
Será verdade que o Demônio levou Cristo ao topo do templo e tentou induzi-lo a pular ao chão?
Como tais milagre podem ser comprovados?
Os mais importantes não escreveram nada, Cristo não escreveu nada, o Demônio permaneceu em silêncio.
Como podemos ter certeza de que o Demônio tentou Cristo? Quem redigiu a narração? Não sabemos. Como o autor tomou conhecimento do fato? Não sabemos.
Alguém, a dezessete séculos atrás, disse que o Demônio tentou Deus; que o Demônio levou Deus ao topo do templo e tentou induzi-lo a pular, mas Deus foi mais esperto que o Demônio.
É apenas essa a evidência que temos.
Será que na literatura mundial há algo mais perfeitamente imbecil?
Pessoas inteligentes não acreditam mais em bruxas, magos, fantasmas ou demônios, e estão plenamente satisfeitas com a idéia de que cada palavra do Novo Testamento sobre a expulsão de demônios é totalmente falsa.
Podemos acreditar que Cristo ressuscitou os mortos?
A viúva de Naim está acompanhando cortejo de seu filho até a tumba. Cristo interrompe o funeral e ressuscita o jovem rapaz e o devolve aos braços de sua mãe.
Este jovem rapaz desaparece. Nunca mais se ouve falar dele. Ninguém parece se interessar pelo homem que retornou da morte. Lucas é o único que conta esta história. Talvez Mateus, Marcos e João nunca tenham ouvido falar dela, ou não a acreditaram, e portanto não a registraram.
João diz que Lázaro foi ressuscitado; Mateus, Marcos e Lucas não falam qualquer coisa sobre isso.
Foi um milagre ainda mais belo que o ressuscitamento do filho da viúva. Este último não tinha sido sepultado por dias, estava apenas a caminho de sua tumba, mas Lázaro estava de fato morto, já tinha começado a decompor-se.
Lázaro não suscitou o menor interesse. Ninguém perguntou a ele sobre o outro mundo. Ninguém perguntou sobre seus amigos mortos. Quando morreu pela segunda vez, ninguém disse: “Ele não está temente. Já atravessou esta estrada e sabe exatamente para onde está indo”.
Não acreditamos nos milagres de Maomé, contudo eles são tão bem comprovados quanto estes.
Não acreditamos nos milagres feitos por Joseph Smith(3), e as evidências são muito maiores, muito melhores.
Se hoje aparecesse um homem fingindo ressuscitar os mortos, fingindo expulsar demônios, o consideraríamos um maluco. O que, então, podemos dizer a respeito de Cristo? Se quisermos salvar sua reputação, seremos forçados a admitir que ele nunca fingiu ressuscitar os mortos, que ele nunca alegou expulsar demônios.
Precisaríamos, então, partir do pressuposto de que essas façanhas impossíveis e ignorantes foram inventadas pelos seus discípulos, que buscavam divinizar seu líder.
Naqueles dias de ignorância essas falsidades serviam para tornar Cristo famoso, mas agora lançam descrédito contra os autores dos evangelhos.
Será que hoje em dia podemos acreditar que água foi transformada em vinho? João relata esse milagre pueril, e diz que os outros discípulos também estavam presentes, contudo Mateus, Marcos e Lucas não dizem qualquer coisa a respeito.
Peguem o milagre do homem curado pelo tanque de Betesda. João diz que um anjo agitou a água do tanque de Betesda, e que o primeiro a entrar nele após o movimento da água seria curado de qualquer enfermidade. (cf.
João 5:4)
Será que hoje em dia alguém ainda acredita que um anjo foi até o tanque e agitou a água? Alguém acredita que o pobre coitado que entrou nela primeiro foi curado? O autor do Evangelho de João acreditava e afirmava essas absurdidades.
Se ele estava enganado quanto a isto, talvez também estivesse quanto a todos os outros milagres que documentou.
João é o único que fala sobre o tanque de Betesda. Provavelmente os outros discípulos não acreditavam na história.
Como podemos dar crédito a esses falsos milagres?
Na época em que os discípulos viveram – e muitos séculos após – o mundo era abarrotado de explicações sobrenaturais. Quase tudo que acontecia era considerado milagroso. Deus era o governador imediato do mundo inteiro. Se as pessoas fossem boas, Deus enviava tempos de plantio e colheita; mas se fossem más, enviava dilúvios, granizo, geadas e fome. Se acontecia algo muito bom, o fato era exagerado até que se transformasse num milagre.
As pessoas não tinham qualquer noção, qualquer conhecimento sobre a ordem dos eventos – sobre a inquebrável cadeia de causas e efeitos.
Milagres são um símbolo da fraude. Nenhum milagre jamais aconteceu. Nenhum homem inteligente e honesto jamais fingiu realizar milagres, e nunca o fará.
Se Cristo tivesse realizado os milagres atribuídos a ele; se tivesse curado os paralíticos e os loucos; se tivesse concedido a audição aos surdos e a visão aos cegos; se tivesse curado leprosos com uma simples palavra, se com um toque tivesse dado vida e força a um membro atrofiado; se tivesse dado pulso e movimento, calor e consciência ao frio e inerte barro; se tivesse conquistado a morte, escapando das pálidas garras da sepultura – então nenhuma palavra seria pronunciada, nenhuma mão seria levantada, salvo em seu louvor e honra. Em sua presença todas cabeças estariam descobertas e todos joelhos contra o chão.
Não é estranho que durante o julgamento de Cristo não se tenha encontrado qualquer indivíduo que testemunhasse a seu favor?
Nenhum homem deu um passo à frente e disse: “Eu era leproso e este homem me curou com um toque”.
Nenhuma mulher disse: “Eu sou a viúva de Naim e este é meu filho, o qual foi ressuscitado por este homem”.
Nenhum homem disse: “Eu era cego e este homem me deu visão”.
Tudo era silêncio.
VIII
A filosofia de Cristo
Milhões afirmam que a filosofia de Cristo é perfeita – que ele foi o mais sábio que já pregou.
Vejamos: “não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. (cf.
Mateus 5:39)
Há alguma filosofia, alguma sabedoria nisso? Cristo retira da bondade, da virtude, da verdade o direito à autodefesa. O vício toma conta do mundo e os bons tornam-se vítimas dos infames.
Nenhum homem tem o direito de proteger-se, de proteger sua propriedade, sua família ou seus filhos. Governar torna-se impossível e o mundo está à mercê dos criminosos. Há algo mais absurdo que isso?
Isso é possível? Será que algum ser humano já amou seus inimigos? Será que Cristo os amava quando os denunciou como sepulcros caiados, hipócritas e víboras? (cf.
Mateus: 23:27)
Não somos capazes de amar aqueles que nos odeiam. Ódio no coração dos outros não faz florescer amor no nosso. Não resistir ao mal é absurdo; amar inimigos é impossível.
“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã”. (cf.
Mateus 6:34)
A idéia é a de que Deus tomaria conta de nós assim como tomou das aves e dos lírios. Há o menor sentido nesta crença?
Deus toma conta de alguém?
Será que podemos viver sem nos preocuparmos com o amanhã? Arar, semear, cultivar, colher: isso é preocupar-se com o amanhã. Nós planejamos e trabalhamos para o futuro, para nossos filhos, para as gerações vindouras. Sem premeditação não poderia haver progresso nem civilização. O mundo retornaria às cavernas e à selvageria.
“se a tua mão te escandaliza, corta-a (...) se o teu olho te escandaliza, lança-o fora”. (cf.
Marcos 9:43 e 47)
Por que? Porque é melhor “entrar no reino de Deus com um só olho, do que, tendo dois olhos, ser lançado no inferno”.
Há alguma sabedoria em arrancar olhos ou decepar mãos? Será possível extrair o menor grão de bom senso desses dizeres extravagantes?
“de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei”. (cf.
Mateus 5:34-35)
Aqui encontramos os conhecimentos de Cristo sobre astronomia e geologia. O céu é o trono de Deus, o monarca; a Terra é seu escabelo. Um escabelo que está numa rotação de mil milhas por hora e que viaja pelo espaço a mais de mil milhas por minuto.
Onde Cristo pensou que o céu estava? Por que Jerusalém é uma cidade sagrada? Será porque seus habitantes eram ignorantes, rústicos e supersticiosos?
“...ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa” (cf.
Mateus 5:40)
Há alguma filosofia, algum bom senso neste mandamento? Isso é tão lógico quanto dizer: “Se um homem te processar e ganhar cem mil, dê a ele duzentos mil”.
Só um maluco seguiria esse conselho.
“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra”. (cf.
Mateus 10:34-35)
Se isso é verdade, quão melhor não seria se ele nunca tivesse existido.
Como é possível que o mesmo indivíduo que disse “não resistais ao homem mau” tenha vindo trazer a espada? Como é possível que o mesmo indivíduo que disse “Amai a vossos inimigos” tenha vindo para destruir a paz do mundo?
E colocar pai contra filho e mãe contra filha – ó, que missão gloriosa!
De fato ele trouxe uma espada, a qual por milhares de anos permaneceu embebida em sangue inocente. Em milhões de corações ele semeou o ódio e a vingança. Dividiu nações e famílias, obscureceu a luz da razão e petrificou os corações dos homens.
“E todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna”. (cf.
Mateus 19:29)
De acordo com o autor de Mateus, Cristo, o compassivo, o misericordioso, pronunciou essas terríveis palavras. Será possível que Cristo ofereceu a felicidade eterna como uma recompensa a todos que abandonassem seus pais, suas mães, suas esposas e seus filhos? Seremos bem-aventurados nos céus se abandonarmos aqueles que amamos? Precisa-se destruir um lar aqui para que se construa uma mansão lá?
Contudo, diz-se que Cristo é um exemplo para o mundo. Ele abandonou seus pai e sua mãe? Ele disse à sua mãe: “Mulher, que tenho eu contigo?”. (cf.
João 2:4)
Os fariseus disseram a Cristo: “É lícito pagar tributo a César, ou não?”. (cf.
Mateus 22)
Cristo disse: “Mostrai-me a moeda do tributo”.
“E eles lhe apresentaram um denário”.
Perguntou-lhes Cristo: “De quem é esta imagem e inscrição?”.
Responderam: “De César”.
E Cristo disse: “Dai, pois, a César o que é de César”.
Cristo pensou que o dinheiro pertencia a César porque sua imagem e sobrescrição estavam estampadas nele? O denário pertence a César ou ao homem que trabalhou por ele? César tinha o direto de requisitá-lo apenas porque estava adornado com sua imagem?
Essa conversa faz parecer que Cristo realmente compreendia a verdadeira natureza e utilidade do dinheiro?
Será que agora podemos dizer que Cristo foi o maior dos filósofos?
IX
Cristo é o nosso exemplo?
Ele nunca pronunciou uma palavra em favor da educação. Nunca sequer mencionou a existência de qualquer ciência. Nunca disse algo em favor da indústria, da economia, de qualquer esforço que visasse melhorar as condições do mundo. Era inimigo dos bem-sucedidos, dos ricos. O homem rico foi enviado ao inferno não porque era mau, mas porque era rico. Lázaro foi enviado ao céu não porque era bom, mas porque era pobre. (cf.
Lucas 16)
Cristo não se importava com pintura, escultura ou música – não dava importância à arte. Não disse nada sobre os deveres das nações uma para com as outras, dos reis para com seus súditos; nada sobre os direitos humanos; nada sobre a liberdade de pensamento e expressão. Não disse nada sobre a santidade do lar; nada em favor do casamento; nada em honra da maternidade.
Nunca se casou. Viveu perambulando de um lugar a outro acompanhado de uns poucos discípulos. Nenhum deles parece ter-se empenhado em qualquer trabalho produtivo; provavelmente viviam de esmolas.
Todas amarras afetivas eram tratadas com desprezo; este mundo era sacrificado em nome do próximo; todo labor era desencorajado. Deus nos ajudaria e protegeria.
Finalmente, nos seus últimos momentos de vida, Cristo, pensando estar errado, gritou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. (cf.
Salmos 22:1)
Descobrimos que o homem é o responsável por si próprio. Ele precisa construir uma casa; precisa cultivar a terra; precisa arar e semear; precisa inventar; precisa trabalhar com a mão e com a mente; precisa superar suas dificuldades e seus obstáculos; precisa conquistar e manipular as forças da natureza para com isso utilizá-las em prol do mundo.
X
Por que deveríamos colocar Cristo no ápice ou acima da raça humana?
Ele era mais bondoso, mais compreensivo, mais auto-sacrificante que Buda? Era mais sábio ou recebeu a morte com uma calma mais perfeita que Sócrates? Era mais paciente, mais caridoso que Epíteto? Era um filósofo mais grandioso, mais profundo que Epicuro? Em que aspecto era superior a Zoroastro? Era mais suave que Lao tsé? Mais universal que Confúcio? Suas idéias a respeito dos direitos e deveres humanos eram superiores às de Zenão? Expressou maiores verdades que Cícero? Seu intelecto era mais sutil que o de Spinoza? Seu cérebro era comparável ao de Kepler ou Newton? Foi superior em sua morte, foi um mártir mais sublime que Bruno? Sua inteligência, sua força e beleza de expressão, sua amplitude e alcance de pensamento, sua riqueza em ilustração, sua aptidão no comparar, seu conhecimento da mente e coração humanos – de todas paixões, esperanças e medos – eram páreo para Shakespeare?
Se Cristo era de fato Deus, então conhecia todo o futuro. Ante ele abria-se todo o panorama do porvir. Ou seja, sabia perfeitamente como suas palavras seriam interpretadas. Sabia quais crimes, quais horrores, quais infâmias seriam cometidas em seu nome. Sabia que as chamas da perseguição abraçariam incontáveis mártires. Sabia que milhares e milhares de homens e mulheres corajosos definhariam em calabouços sombrios, cheios de dor. Sabia que a Igreja inventaria instrumentos de tortura; que seus representantes utilizariam chicotes, troncos(4), correntes e ecúleos(5). Viu no horizonte do futuro o brilho das chamas dos autos-de-fé(6). Sabia que nasceriam doutrinas de cada texto como fungos deletérios. Viu seitas ignorantes travando guerras umas contra as outras. Viu milhares de homens, sob o comando de padres, construindo prisões para seus semelhantes. Viu o sangue mais nobre e bravo escorrer em milhares de patíbulos(7). Viu os fiéis de sua palavra usando instrumentos de tortura. Ouviu os gemidos, viu as faces empalidecerem em agonia. Ouviu os gritos e gemidos, viu correrem as lágrimas das multidões martirizadas. Sabia que espadas escreveriam comentários sobre suas palavras – para serem lidos à luz de troncos(4). Sabia que a Inquisição nasceria de ensinamentos atribuídos a ele.
Viu as interpolações e falsidades que seriam criadas pela hipocrisia. Viu todas as guerras futuras, e sabia que acima desses campos de morticínio, desses calabouços, dessas torturas, dessas cremações, dessas execuções, estaria hasteada uma bandeira com o símbolo da cruz gotejando sangue.
Sabia que a hipocrisia seria adornada e coroada – que a crueldade e a credulidade governariam o mundo; sabia que a liberdade seria varrida da Terra; sabia que papas e reis usariam seu nome para escravizar os corpos e a alma dos homens; sabia que os descobridores, pensadores e inventores seriam perseguidos e aniquilados; sabia que sua Igreja despojaria o mundo da sagrada luz da razão.
Viu seus discípulos vazando os olhos dos homens, os esfolando vivos, decepando suas línguas, procurando descobrir todos os nervos responsáveis pela dor.
Sabia que em seu nome seus seguidores usariam carne humana como moeda; sabia que, por ouro, berços seriam roubados e seios maternos ficariam sem ter a quem alimentar.
Contudo, morreu com os lábios em silêncio.
Por que não falou nada? Por que não disse isto aos seus discípulos – e através deles ao mundo –: “Tu não queimarás, não prenderás nem torturarás em meu nome. Tu não perseguirás teu próximo”.
Por que não disse claramente: “Eu sou o Filho de Deus” ou “Eu sou Deus”? Por que não explicou a Trindade? Por que não disse que tipo de batismo lhe agradava? Por que não escreveu uma doutrina? Por que não partiu as correntes dos escravos? Por que não disse se o Velho Testamento era ou não inspirado por Deus? Por que não escreveu o Novo Testamento ele próprio? Por que deixou suas palavras ao sabor da ignorância, da hipocrisia e do acaso? Por que não disse algo positivo, definitivo e satisfatório sobre o outro mundo? Por que não transformou a lacrimosa esperança num céu em uma venturosa certeza sobre uma outra vida? Por que não nos disse algo sobre os direitos humanos, sobre a liberdade no agir e no pensar?
Por que se entregou a uma morte infame, deixando no mundo a miséria e a dúvida?
Eu vou dizer o porquê: Jesus era um homem, ele não sabia.
XI
Inspiração
Somente por volta século III afirmou-se ou creu-se que os livros constituintes do Novo Testamento eram inspirados.
Lembremos que havia um grande número de livros, Evangelhos, Epístolas e Atos, e que homens “não inspirados” selecionaram quais deles eram “inspirados”.
Entre os “Pais” havia grandes divergências de opinião quanto aos livros realmente inspirados; muita discussão e muito ódio. Vários dos livros atualmente considerados espúrios eram julgados divinos por muitos dos “Pais”; alguns dos que atualmente são considerados inspirados eram tidos como espúrios. Muitos dos primeiros cristãos e alguns dos “Pais” repudiaram o Evangelho de João, a Epístola dos Hebreus, de Judas, de Tiago, de Pedro e a Revelação S. João. Por outro lado, muitos deles consideravam o Evangelho dos Hebreus, dos Egípcios, a Pregação de Pedro, o Pastor de Hermas, a Epístola de Barnabé, a Revelação de Pedro, a Revelação de Paulo, a Epístola de Clemente, o Evangelho de Nicodemos, como autênticos livros inspirados.
Dentre esses livros, e muitos outros, os cristãos selecionaram os inspirados.
Os homens que fizeram a seleção eram ignorantes e supersticiosos. Acreditavam firmemente em milagres. Pensavam que doenças tinham sido curadas pelos aventais e lenços dos apóstolos, pelos ossos dos mortos. Acreditavam na fábula da Fênix e também que a hienas mudavam de sexo anualmente.
Os homens que, ao longo de muitos séculos, fizeram a seleção estavam inspirados? Aqueles homens – ignorantes, crédulos, estúpidos e maliciosos – eram tão bem qualificados para julgar a “inspiração” quanto os estudiosos de nosso tempo? O que nos prende à opinião deles? Não temos o direito de julgar nós mesmos?
Erasmo, um dos líderes da Reforma, declarou que a Epístola dos Hebreus não havia sido escrita por Paulo, negou a inspiração da Segunda e Terceira de João e também a da Revelação. Lutero tinha a mesma opinião. Declarou que Tiago era uma epístola sem valor e negou a inspiração da Revelação. Zwingli rejeitou o livro da Revelação e mesmo Calvino negou que Paulo era o autor de Hebreus.
A verdade é que os protestantes só entraram em acordo quanto à inspiração dos livros em 1647, na Assembléia de Westminster.
Para provar que um livro é inspirado é preciso provar a existência de Deus. Também é necessário provar que este Deus pensa, age, tem objetivos, finalidades e alvos. Fazê-lo é um pouco difícil.
É impossível conceber a idéia de um ser infinito. Não tendo a concepção de um ser infinito, é impossível dizer se todos fatos que conhecemos tendem a provar ou refutar a existência de tal ser.
Deus é uma suposição. Mas mesmo admitindo-se a existência de Deus, como poderíamos provar que ele inspirou os escritores dos livros da Bíblia?
Como um homem pode estabelecer a inspiração de outro? Como um homem inspirado pode provar que está inspirado? Como ele próprio sabe que está inspirado?
É impossível provar o fato de se estar inspirado. A única evidência que possuímos é a palavra de um homem.
O que é inspiração? Deus usa homens como instrumentos? Fez com que escrevessem seus pensamentos? Tomou posse de suas mentes e suprimiu suas vontades?
Esses escritores estavam apenas parcialmente controlados, daí seus equívocos, sua ignorância e seus preconceitos estarem misturados com a sabedoria de Deus?
Como podemos distinguir os erros do homem dos pensamentos de Deus? Podemos fazê-lo sem estarmos inspirados? Se os autores originais estavam inspirados, então os tradutores também deveriam estar, assim como os intérpretes da Bíblia.
Como é possível a um ser humano ter consciência de que está inspirado por um ser infinito? Mas de uma coisa podemos ter certeza: um livro inspirado certamente deve ser superior a quaisquer outros livros produzidos por homens não inspirados. Deve, acima de tudo, ser verdadeiro, repleto de sabedoria, prosperidade e beleza – deve ser perfeito.
Os ministros perguntam-se como posso ser pervertido o suficiente para atacar a Bíblia.
Bem, vou responder: este livro, a Bíblia, perseguiu – às vezes até a morte – os melhores e mais sábios dentre os homens. Este livro atravancou e paralisou o progresso da raça humana. Este livro envenenou as fontes do conhecimento e descaminhou as energias do homem.
Este livro é inimigo da liberdade – apóia a escravidão. Este livrou semeou o ódio em famílias e nações, alimentou as chamas da guerra e empobreceu o mundo. Este livro é o sustentáculo dos reis e tiranos – o escravizador de mulheres e crianças. Este livro corrompeu parlamentos e cortes. Este livro fez com que faculdades e universidades ensinassem erros e odiassem a ciência. Este livro encheu a cristandade de seitas odiosas, cruéis, ignorantes e autoritárias. Este livro ensinou o homem a matar seus semelhantes em nome de Deus. Este livro fundamentou a Inquisição, inventou instrumentos de tortura, construiu calabouços nos quais homens bondosos apodreciam, forjou as correntes que se enferrujaram envolvendo seus corpos e erigiu os patíbulos nos quais foram mortos. Este livro colocou os justos em troncos(4). Este livro despojou a razão da mente de milhões e encheu os asilos de malucos.
Este livro fez com que pais e mães derramassem o sangue de seus bebês. Este livro era o tablado sobre o qual as mães escravas ficavam durante os leilões que as separariam de suas crianças. Este livro rendeu muito aos vendedores de escravos e transformou carne humana em mercadoria. Este livro acendeu as chamas que consumiram as “bruxas” e “feiticeiras”. Este livro transformou a escuridão na morada de fantasmas e os corpos de homens e mulheres na morada de demônios. Este livro poluiu as almas dos homens com o infame dogma da danação eterna. Este livro transformou a credulidade na maior das virtudes e a investigação no maior dos crimes. Este livro encheu nações de eremitas, monges e freiras – de gente fanática e inútil. Este livro colocou os santos ignorantes e imundos acima dos filósofos e filantropos. Este livro ensinou o homem a desprezar as alegrias desta vida para poder ser feliz na outra – a desperdiçar este mundo em nome do próximo.
Ataco este livro porque é um inimigo da liberdade humana – a maior travanca no progresso da humanidade.
Senhores ministros, me permitam fazer-lhes uma pergunta: como vocês podem ser pervertidos o suficiente para defenderem este livro?
XII
A verdadeira Bíblia
Por milhares de anos o homem vem escrevendo a verdadeira Bíblia – está sendo escrita dia a dia, e nunca será terminada enquanto o homem tiver vida.
Todos os fatos que conhecemos – os eventos verdadeiramente ocorridos; todas as descobertas e invenções; todas as maravilhosas máquinas cujas engrenagens parecem ter vida própria; todos os poemas; todas as jóias do intelecto; todas as flores do coração; todas as canções de amor – as tristes e as alegres; os grandes dramas da imaginação; as admiráveis pinturas – verdadeiros milagres da forma e da cor, da luz e da sombra; as maravilhosas esculturas que parecem respirar; os segredos contados pelas rochas e pelas estrelas, pelo pó e pelas flores, pela chuva e pela neve, pelo frio e pelo fogo, pelas correntes de ar e pela areia do deserto, pela altura das montanhas e pelas ondas do mar.
Toda a sabedoria que prolonga e enobrece a vida, que previne e cura doenças, que conquista a dor; todas as leis perfeitas e justas que guiam e modelam nossas vidas; todos os pensamentos que alimentam as chamas do amor; a música que transfigura, arrebata e enfeitiça; as vitórias do coração e da mente; os milagres que mãos construíram; as sábias e hábeis mãos daqueles que trabalharam por suas esposas e filhos; as histórias sobre feitos nobres, sobre homens bravos e produtivos, sobre o amor de esposas leais, sobre o amor incondicional das mães, sobre os conflitos em nome da justiça, sobre os sacrifícios em nome da verdade, sobre tudo de melhor que os homens e mulheres do mundo disseram, pensaram e fizeram através dos anos.
Estes tesouros do coração e do intelecto são as verdadeiras Sagradas Escrituras da raça humana.
Notas
As partes retiradas da Bíblia estão em itálico.
A versão original de Sobre a Bíblia Sagrada (About the Holy Bible) não traz o capítulo ou o versículo em que se encontram as passagens aludidas ou transcritas, por isso, quando entendido necessário, a fim de agilizar as consultas, foram adicionados, entre parênteses, links que conduzem diretamente ao capítulo em questão.
1 – No original aparece capítulo 17, mas na realidade o verso citado encontra-se no capítulo 18.
2 – O original diz quatro olhos, mas em Zacarias 3:9 é dito que este número é sete.
3 – Joseph Smith, nascido em 1805, foi um “profeta” que alegou ter sido visitado aos catorze anos de idade por Deus e Jesus Cristo, os quais incumbiram-no de restaurar a “verdadeira Igreja”.
4 – Antigo instrumento de tortura, que consistia num cepo com olhais, onde se metia o pé ou o pescoço do paciente. (Dic. Aurélio)
5 – Cavalo de madeira, no qual se torturavam os acusados ou condenados. (Dic. Aurélio)
6 – Cerimônia em que se proclamavam e executavam as sentenças do Tribunal da Inquisição, e na qual os penitenciados ou abjuravam os seus erros, ou eram condenados ao suplício da fogueira. (Dic. Aurélio)
7 – Estrado ou lugar onde os condenados sofrem a pena capital (forca, guilhotina, decapitação). (Dic. Aurélio)